HISTÓRIA

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

CABO VERDE: VIAGEM PELA HISTÓRIA DAS ILHAS({{continuação}}) 11 Agosto 2010

O tempo dos intelectuais

Muitos dos nossos poetas do séc XIX, quase todos eles intelectuais de sólida cultura adquirida no Seminário-Liceu de S.Nicolau, insistiram em recuperar a favor de Cabo Verde a clássica designação de ilhas hespiritanas, o mitológico jardim da Atlântida que os deuses costumavam usar para o seu repouso.

Por: Germano Almeida

CABO VERDE: VIAGEM PELA HISTÓRIA DAS ILHAS({{continuação}})

Uma explicação plausível para tal excesso poderá advir do orgulho no caldeamento humano que os longos séculos foram forjando no penoso ambiente das ilhas, na crua realidade de um dia-a-dia de contínua luta contra as secas e as suas mortíferas consequências. E foi a chocante realidade desse secular cortejo de misérias que ora empurrava o homem caboverdiano para a morte, ora o forçava à emigração, ainda que fosse apenas para a desenfreada exploração das roças de S.Tomé, que um grupo de intelectuais nacionais tentou denunciar através da revista Claridade, na sequência dos desesperados desmandos dos famintos de 1934.

Claridade não era uma ideia em si nova, excepção feita aos temas que tratou. Ao longo dos anos precedentes indivíduos como Eugénio Tavares, José Lopes, Loff de Vasconcelos, e especialmente Pedro Cardoso e o seu famoso O Manduco, para apenas mencionar esses, tinham-se esforçado por denunciar as dolorosas e degradantes condições de vida em Cabo Verde.

Com excepção de Pedro Cardoso, os intelectuais dessa época eram descendentes directos de portugueses por qualquer razão radicados em Cabo Verde, educados como portugueses, razão por que se sentiam e se consideravam portugueses tal qual os da Metrópole. Para eles Cabo Verde era uma parcela portuguesa onde as condições de vida eram humilhantes, onde as fomes e outras misérias destruíam o homem, razão por que a luta que travaram para pôr cobro a isso tudo foi sempre dentro do quadro de um Cabo Verde parte integrante da Mãe Pátria. Nunca nenhum deles chegou a seriamente teorizar a ideia de um Cabo Verde independente.

E daí, por consequência, o seu ofendido escândalo quando se falou em Portugal da hipótese de vender algumas das suas colónias para pagar as dívidas do Estado, tal qual tinha feito a Espanha com Cuba, Porto Rico e Filipinas. Para esses portugueses de Cabo Verde foi sobretudo um choque, cujos efeitos, aliás, persistiram muito para além das suas vidas porque, ainda que lentamente, conduziram os intelectuais do futuro a assumir e a postular a verdade de os caboverdianos serem diferentes dos portugueses. Loff de Vasconcellos viria a ser o arauto daquilo que sobretudo foi visto como uma ofensa aos caboverdianos: “Feridos profundamente no nosso duplo patriotismo de português e de africano, não podemos deixar de patentear o nosso desgosto, o nosso pesar, ante essa ideia, que... reputamos fundamentalmente afrontosa para o brio nacional e humilhante para os naturais das colónias.” Loff sente necessidade de afirmar um postulado que até lá tinha sido um dado para a burguesia caboverdiana, as chamadas “forças vivas”, a saber: “queremos ser portugueses como os portugueses”, com as mesmas regalias, os mesmos respeitos e as mesmas atenções governativas. Porém, essa afronta doía na alma, pelo que Loff termina a sua invectiva clamando zangado que “já que não nos querem nem como colónia nem como ilhas adjacentes, então deixem-nos seguir o nosso caminho!”

Igualmente o poeta Eugénio Tavares se manifestaria acerca da venda das colónias, porém sem a cólera de Loff Vasconcellos, antes dizendo de forma irónica que a Metrópole não podia tratar-nos como mercadorias: “Nós os africanos somos filhos da mãe-pátria. Filhos mais ou menos desprezados, é verdade, mas filhos, em todo o caso. Aguardemos os acontecimentos e vejamos se os portugueses de Angola, Moçambique e Cabo Verde estarão dispostos a aceitar essa classificação de artigos de factura”.

Creio que mais que as tragédias provocadas pelas seculares fomes, sobretudo tenha sido essa ideia de venda que exasperou os caboverdianos, cuja ligação à terra começou a ser manifestada de forma aberta, como é por exemplo o senador Vera Cruz, bisneto do conselheiro Manuel António Martins, que chegou a fazer como que uma profissão de fé: sou português de sangue e coração, mas acima de tudo sou caboverdiano!

Ainda que seja evidente que o grito revoltado de Loff de Vasconcelos de forma alguma traduzia uma posição política consequente no sentido do afastamento de Cabo Verde de Portugal, querendo ou não o grupo claridoso herdava um passado que rapidamente lhe levou a adquirir a consciência do que anos antes o mesmo Loff de Vasconcelos tinha afirmado, a saber, o povo surgido dos diversos cruzamento de raças e culturas neste espaço isolado do resto mundo que afinal das contas tinha funcionado como um laboratório humano, era culturalmente diferente do povo português.

E não só era diferente, como era tratado como tal, “criminosamente esquecida pelos poderes públicos” como disse Betencourt Rodrigues em 1930 e provava o cortejo das fomes não debeladas que tinha sido a sua história, como que responsabilizando-a pela sua desgraça, o que levaria o prof. Orlando Ribeiro a escrever que “O cabo-verdiano não é responsável pelo seu destino.Os portugueses encontraram este arquipélago inóspito, povoaram-no com a sua gente e com negros africanos arrancados às suas terras e compelidos ao trabalho. No conjunto dos territórios nacionais, nenhum existe tão pobre e tão desamparado...É um dever de consciência nacional não os esquecer nas horas más que tantas vezes soam para eles”.

Porém, a Metrópole acabara por habituar-se a viver na convicção de que em Cabo Verde sempre se tinha morrido de fome e por conseguinte nada podia ser feito para impedir essa tragédia. Ora muito ao contrário dessa posição de fatalismo, esses jovens caboverdianos tomam consciência da realidade dolorosa que aqui se vive e disso resulta a precupação com o povo das ilhas, com o problema do processo de formação social das ilhas, enfim, com a necessidade de se empreender o estudo das raízes de Cabo Verde, sobretudo como uma forma de nos compreendermos e aprendermos a nos situarmos. Vinte anos depois da revista Claridade, Baltasar Lopes, o autor de CHIQUINHO, o primeiro romance não apenas escrito em Cabo Verde mas de facto retintamente caboverdiano, viria a resumir da seguinte maneira o propósito do grupo:...eu e um grupo de amigos começamos a pensar no nosso problema, isto é, no problema de Cabo Verde…

Directamente influenciados pelos escritores do nordeste brasileiro, como José Lins Rego, Érico Veríssimo, Jorge Amado e muitos outros, é sobre Cabo Verde, sobre o drama do povo de Cabo Verde que os claridosos querem debruçar-se. Mostrando que Cabo Verde não é de forma alguma o jardim das Hespérides cantado pelos poetas da época anterior, não é o lugar onde os deuses vêm repousar. Pelo contrário,Cabo Verde é uma terra desprezada e esquecida onde os homens lutam diariamente contra uma natureza madrasta, e vivem na miséria, e morrem de fome. “O drama reside na penosa constatação de que a natureza é, em Cabo Verde,tão rebelde e diabólica, que o homem não consegue vencê-la, que o homem antes de tudo é vítima dela”, escreve o romancista Manuel Lopes, um dos membros mais politicamente interviente do grupo e autor de livros como OS FLAGELADOS DO VENTO LESTE, CHUVA BRABA, O GALO QUE CANTOU NA BAÍA, etc.
Dele ainda é a desencantada frase que de alguma forma resumia a posição ideológica da época: A natureza que envolve estas dez ilhas desqualifica o homem! afirmação que sem dúvida tinha como objectivo justificar a aparente apatia do caboverdeano, apatia que segundo ele não é senão a renuncia de um povo heróico, ainda que de uma heroicidade apagada e humilde porque preso nas teias de mil impossibilidades.

Essa ideia de homem desqualificado e preso nas teias das mil impossibilidades da vida, tem necessariamente a ver com a postura política das gerações de intelectuais que antecederam a Claridade, mas também com a própria postura e posições políticas dos claridosos. Com efeito, embora tomando consciência da sua condição de homem caboverdiano, isto é, não de portugueses nascidos em Cabo Verde mas sim de caboverdianos sob domínio português, os claridosos ainda se limitam, como diz Baltasar Lopes, a pensar no nosso problema, isto é, no problema de Cabo Verde, sem no entanto chegar ao passo seguinte de corte do cordão umbilical que o liga a Portugal, dando o salto qualitativo que é a assunção da luta pela independência e por aquilo que ela forçosamente teria que significar, a saber, um esforço colectivo para que o homem caboverdiano possa viver na sua terra com dignidade e sem as constantes ameaças de crise e de fome.
E é por isso que a literatura do grupo claridoso acaba por se resumir a uma denúncia amarga do desamparo das ilhas, das secas e das fomes. Paradigmático dessa atitude é o romance CHIQUINHO de Baltasar Lopes que retrata o abandono do Porto Grande de S.Vicente como rota dos vapores do comércio internacional e o consequente desemprego, fome e doença da classe operária da ilha. CHUVA BRAVA e OS FLAGELADOS DO VENTO LESTE abordam a temática da vida no campo, os olhos postos num céu esquecido dos homens em baixo implorando uma gota d’água. Assim, os autores que publicaram na “Claridade” escolheram como temas predilectos a fome e a miséria em que Cabo Verde vivia, o abandono a que o nosso povo era votado pelos sucessivos Governos coloniais. Livros como “Chiquinho” de Baltasar Lopes ou “Os Flagelados do Vento Leste” de Manuel Lopes, tal como muitos poemas de Jorge Barbosa de que Casebre será o exemplo mais emblemático, (Foi a estiagem que passou./ Nestes tempos/não tem descanso/a padiola mortuária da regedoria./Levou primeiro o corpo mirrado da mulher/com o filho nú ao lado/de barriga inchada/que se diria/que foi de fartura que morreu./O homem depois/com os olhos parados/abertos ainda./Tão silenciosa a tragédia das secas nestas ilhas!/Nem gritos nem alarme/-somente o jeito passivo de morrer!), constituem verdadeiros libelos de denúncia da situação de um povo que persistia no trágico dilema de morrer de sede quando a chuva faltava e morrer afogado quando a chuva chegava.

Queira-se ou não, os claridosos e as suas obras abriram caminho para o salto que viria a ser o aparecimento de uma literatura de aberta contestação política ao colonialismo, e é por isso que a “Claridade” é justamente tida como a afirmação da nossa independência literária. Essa literatura contaria, entre outros, com poetas como Ovídio Martins, Onésimo Silveira, Gabriel Mariano e Corsino Fortes, este talvez o mais constante dos poetas da sua geração e cuja obra já não se queda na simples contemplação da nossa miséria, antes vai “beber da água da nossa secura” em busca de um sentido positivo e pragmático para aquela que tinha sido até então uma desenganada luta de séculos, afirmando, na própria esteira da luta de libertação nacional, que a nossa solução está aqui, no nosso chão e nas nossas cabeças: “mesmo sendo, já não somos os flagelados do vento leste/ que o digam os braços do povo no povoado”.

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