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Andamãs: há 50 anos povo misterioso e valoroso, hoje mendigos 07 Maio 2017

Em 1966 o antropólogo indiano T.N. Pandit revelou ao mundo o "povo mais misterioso da Terra", a tribo Jarawa, que vive isolada numa das ilhas do Oceano Índico, desde que saiu de África há cinquenta mil anos. A exposição súbita da sua juventude ao maravilhoso mundo, das tecnologias desconhecidas, estragou-os, arrepende-se hoje o antropólogo entrevistado pelo ’New York Times’.

Andamãs: há  50 anos povo misterioso e valoroso, hoje mendigos

A foto, dos anos de 1980, mostra um homem de pele clara, o antropólogo indiano originário da província de Caxemira, a entregar um coco a um rapaz de pele escura, na baía da ilha de Sentinela (1ª foto de rodapé).

Nessa altura havia quase 20 anos que o antropólogo, encarregue pelo governo da União Indiana de estudar os Jarawa, visitava a ilha de Sentinela. 20 anos de tentativas a maior parte frustradas, para se encontrar com a tribo que vivia no interior de florestas impenetráveis.

O contacto no litoral à entrada das florestas era breve e muito desconfiado até que um dia aproximaram-se e a foto regista esse momento, descreveu Pandit (em entrevista publicada este domingo, 7).

Expedições científicas

Antes de existirem descrições científicas, sobre "o povo misterioso", havia relatos mais ou menos fantasiosos sobre povos a viver em ilhas isoladas da região.

Por exemplo, desde a era da expansão portuguesa, de Quinhentos, que há relatos de povos a viver isolados em ilhas do Golfo de Bengala. Nunca ninguém tinha conseguido voltar de lá vivo – aludia-se em crónicas quinhentistas como as de Barros e de Castanheda, e repetia o aventureiro Fernão Mendes Pinto na sua ‘Peregrinação’.

Nos fins do século XIX, as primeiras expedições científicas, de antropólogos ingleses, começaram a desvendar o mistério destes povos diferentes dos indianos e que fisicamente eram mais aparentados com os negros africanos, dado o mesmo tipo de cabelo afro e os traços fisionómicos.

“Povo corajoso, valente e muito esperto”, assim descreveu A.R. Radcliffe-Brown as diversas tribos do arquipélago do golfo de Bengala. Este antropólogo inglês visitou as ilhas Andamã entre 1906 e 1908, antes de se tornar famoso pelos estudos etno-sociológicos sobre os aborígenes australianos e que formataram a socioantropologia até hoje.

Um desses povos, a tribo Jarawa, até hoje vive em florestas impenetráveis. Enquanto outras tribos, em contacto com os sucessivos invasores, nomeadamente indianos, se tinham miscigenado, os Jarawa permaneceram isolados. Ninguém conseguiu, por terra ou transporte aéreo, aproximar-se das suas aldeias – num total de nove, cada uma habitada previsivelmente por meia centena de pessoas —, pois são considerados temíveis com o arco e a flecha.

As expedições científicas mais recentes, comandadas por Tanit, começaram por deixar presentes à entrada das florestas habitadas pelos Jarawa. Estes que à aproximação de estranhos se escondiam, começaram a estabelecer contacto.

Origens: mais hipóteses baseadas na "superciência do ADN" o que dá menos certezas

As mais recentes hipóteses – apoiadas com levantamentos genéticos –
apontam que os povos negroides que habitam o arquipélago das Andamãs têm origem africana datável de há cerca de 50 mil anos.

O percurso migratório teria sido feito através da península Arábica, com chegada ao subcontinente indiano numa fase em que as ilhas do Golfo de Bengala eram maiores e estavam mais próximas da massa continental sendo possível a travessia em embarcações rudimentares.

Um povo na Idade da Pedra impulsiona safaris humanos

Desde os anos de 1980 que surgiram os safaris humanos, constituídos primeiro por europeus ricos que iam às ilhas fotografar os nativos.

Os ricos hoje vão de helicóptero — a 2ªfoto de rodapé mostra um rapaz da tribo Jarawa a atirar uma flecha sobre um helicóptero — , enquanto que a organização de passeios de barcos, massificando este tipo de turismo, permite a famílias de menos posses desembarcarem nas ilhas, donde regressam com fotos compradas a mercadores locais indianos.

Este depor de armas levou a que entrassem em contacto pacífico com a população indiana e outra. Começaram por fazer trocas de mercadorias: um cesto de peixes por bens industriais. Recebiam mercadorias indianas e em troca deixavam-se fotografar ou filmar. Rapazes na sua nudez natural e raparigas de seios nus a dançar para homens em cuja cultura a nudez é infamante.

Vinte anos depois destes contactos mais frequentes, o resultado é tido como catastrófico. Os Jarawa deixaram de ser o povo altivo que eram, passaram a viver de donativos – que, aliás, deixaram de ser-lhes dado e que agora têm de mendigar.

Antropólogo arrependido

Pandit confessa que se fosse hoje a sua abordagem teria sido outra. Em vez de procurar convencer os Jarawa a enterrarem os seus arcos e flechas, teria feito tudo para eles serem protegidos do contacto o máximo possível, mesmo se afirma que “o impacto negativo do contacto próximo é triste, mas é inevitável”.

Era “uma comunidade espantosa, mas todo o seu enquadramento dissolveu-se, e perderam a sua autoconfiança, o seu sentido de vida e de sobrevivência. Agora para terem as coisas basta-lhes pedir, mendigar”.

Embora diga que não está surpreendido, já que o poder da tecnologia trazida tinha de fascinar esses jovens e levá-los a submeterem-se, o ideal teria sido conseguir atrasar o processo para dar tempo a esses povos para perceberem o valor do que tinham antes de serem fascinados pelas maravilhas e facilidade da tecnologia.

Talvez com mais tempo para se prepararem, se evitasse o que Pandit prevê: “ Estas comunidades vão desaparecer”, lamenta, “e as suas culturas vão perder-se”.

— -
N.B. Além das Fontes Históricas e de descrições em revistas científicas, são da referida edição, de 7/5/2017, do New York Times as citações de T.N. Pandit e a foto ao alto. As de rodapé são do site do governo indiano.

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