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A ESTATÍSTICA NA ATUALIDADE 09 Julho 2017

Nos regimes democráticos os Governos implementam as Políticas Públicas com base em Estatísticas Oficiais fiáveis, uma vez que necessitam de prestar contas das suas ações à Sociedade, tendendo a ampliar os órgãos de controlo e avaliação dessas ações, pois a transparência e a correção da ação governamental constituem a base da Democracia, e da mesma forma novos atores entram em cena, como associações empresariais, sindicatos, partidos políticos e organizações não-governamentais, que também passam a utilizar crescentemente Estatísticas Oficiais, seja para definir os seus focos de atuação, seja para acompanhar a ação governamental.

Por: Adrião Simões Ferreira da Cunha

(Estaticista Oficial Aposentado - Antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal)

A ESTATÍSTICA NA ATUALIDADE

No Século XX a Estatística revolucionou a ciência através de modelos que sofisticaram o processo de pesquisa, permitindo orientar a tomada de decisões nas políticas socioeconómicas, tendo os métodos estatísticos sido desenvolvidos como uma mistura de ciência, tecnologia e lógica para a solução e investigação de problemas em diferentes áreas do conhecimento.

A chegada dos computadores pessoais, cada vez mais poderosos, foi decisiva e fez com que a Estatística se tornasse mais acessível aos investigadores dos vários campos de atuação, e atualmente os hardwares e softwares permitem manipular uma grande quantidade de dados, dinamizando o emprego dos métodos estatísticos.
Hoje a utilização da Estatística está disseminada nas Universidades, nas empresas privadas e públicas. Dados numéricos são usados para melhorar e aumentar a produção, e gráficos e tabelas são apresentados na exposição de resultados das empresas. Censos demográficos auxiliam os Governos a entender melhor a sua população e organizar os gastos com saúde, educação, saneamento básico, infraestruturas, entre outros. Com a velocidade da informação, a Estatística passou a ser uma ferramenta essencial na produção e disseminação do conhecimento.

A importância atribuída à Estatística é tão grande que todos os Governos possuem organismos oficiais de produção e difusão de Estatísticas Oficiais, geralmente designados Institutos Nacionais de Estatística (INE).

Nos regimes democráticos os Governos implementam as Políticas Públicas com base em Estatísticas Oficiais fiáveis, uma vez que necessitam de prestar contas das suas ações à Sociedade, tendendo a ampliar os órgãos de controlo e avaliação dessas ações, pois a transparência e a correção da ação governamental constituem a base da Democracia, e da mesma forma novos atores entram em cena, como associações empresariais, sindicatos, partidos políticos e organizações não-governamentais, que também passam a utilizar crescentemente Estatísticas Oficiais, seja para definir os seus focos de atuação, seja para acompanhar a ação governamental.

Outra mudança, mais recente, da forma de atuação governamental, que tem implicado nova procura de Estatísticas Oficiais, foi a focalização nas políticas sociais. Várias ações governamentais passaram a eleger segmentos específicos da população como alvo, requerendo Estatísticas Oficiais detalhadas das características da população, de modo a permitir a identificação do segmento prioritário, incluindo, em muitos casos, a sua localização espacial.

Para que os gestores públicos possam de forma eficiente elaborar, executar, acompanhar e avaliar as ações governamentais, as Estatísticas Oficiais, além de cobrirem um amplo campo temático e territorial, necessitam de ser atualizadas em permanência, o que significa que não bastam informações estatísticas censitárias, atualizadas a cada 10 anos, nem as de inquéritos amostrais, mais frequentes, mas sem a possibilidade de desagregações espaciais específicas.
Assim, os INE para responderem às necessidades dos utilizadores têm de valer-se de inquéritos específicos ou de registos administrativos que originalmente foram construídos para outros fins, o que implica mais esforços visando a recolha, organização, avaliação, validação e disponibilização de dados de diferentes origens, ampliando cada vez mais a importância dos métodos e técnicas estatísticas para realizar tais atividades.

O que se entende modernamente por Estatística é muito mais do que um conjunto de técnicas para algumas áreas isoladas ou restritas da ciência. Por exemplo, ao contrário do que alguns imaginam, a Estatística não é um ramo da matemática onde se investigam os processos de obtenção, organização e análise de dados sobre uma determinada população. Também não se limita a um conjunto de elementos numéricos relativos a um facto social, nem a tabelas e gráficos usados para o resumo, a organização e apresentação dos dados de um inquérito, embora este seja um aspeto da Estatística que pode ser facilmente percebido no quotidiano.

A Estatística é definida como um conjunto de métodos e técnicas que envolve todas as etapas de um inquérito, desde o planeamento, recolha de dados por inquéritos amostrais ou exaustivos e entrevistas com a máxima quantidade de informação possível para um dado custo, até à consistência, processamento, organização, análise de dados para explicar fenómenos socioeconómicos; inferência, cálculo do nível de confiança e do erro de resposta para uma determinada variável, e disseminação das informações. Neste sentido, o objetivo da Estatística é analisar os dados disponíveis e que estão sujeitos a certo grau de incerteza no planeamento e obtenção de resultados.

A partir do Século XX começou a ser aplicada nas grandes organizações, quando os japoneses começaram a falar em qualidade total, surgindo a Estatística Moderna, considerada uma disciplina. A partir daí, evoluiu de forma significativa, passando a ser utilizada nos diferentes setores da Sociedade como forma de obtenção de informações a partir da recolha de dados com base em métodos de amostragem complexos.

Os avanços das Tecnologias da Informação e da Comunicação, envolvendo todas as atividades e soluções com recursos de computação, a partir da 2ª metade do Século XX, tendo como consequências o aumento significativo da capacidade de produzir, armazenar e transmitir informações, associados ao crescimento da procura de dados num mundo globalizado, vêm exigindo da Estatística avanços paralelos no desenvolvimento de metodologias e novos indicadores cada vez mais complexos, que exigem modernos hardwares e softwares estatísticos. A geração cada vez mais sofisticada de indicadores sintéticos como o Índice de Desenvolvimento Humano, bem como a georreferenciação das informações, são alguns exemplos do que já vem ocorrendo.

De destacar ainda que a evolução constante e acelerada da capacidade de processamento dos computadores, aliada ao desenvolvimento de softwares cada vez mais poderosos, originou um aumento do interesse pelos métodos estatísticos computacionalmente intensivos.

A utilidade da Estatística expressa-se no seu uso, uma vez que grande parte das hipóteses científicas, independentemente da área, precisa de passar por um estudo estatístico para ser aceite ou rejeitada, como é o caso do teste de novos medicamentos, a opinião popular de novos produtos, entre outros. Na área médica, por exemplo, nenhum medicamento pode ser disponibilizado se não tiver a sua eficácia estatisticamente comprovada.

O grande volume de informações produzidas pelo mundo moderno precisa de ser analisado adequadamente, utilizando as mais variadas técnicas estatísticas. Com rigor, onde houver incerteza a Estatística pode ser empregada, pelo que todas as áreas do conhecimento humano a requerem como instrumento de análise de dados.

A Estatística pode considerar-se uma ciência quando, baseando-se nas suas teorias, estuda grandes massas de dados, independentemente da natureza, sendo autónoma e universal. É considerada um método quando serve de instrumento particular a uma determinada ciência [como agronomia, biologia, física, medicina ou psicologia].

Os cidadãos pensam que a Estatística se resume a apresentar tabelas e gráficos em jornais ou, ainda, associam-na à previsão de resultados eleitorais. Porém, a Estatística Moderna não é responsável apenas pela criação de tabelas e gráficos, mas trabalha também com metodologias científicas muito mais complexas.

Instituições governamentais, tanto a nível nacional como municipal, deparam-se com questões que necessitam de análise estatística para a tomada de decisão. Citem-se como exemplos: Qual a quantidade de recursos necessária para o financiamento da safra de milho a produzir no próximo ano? Pode determinado medicamento reduzir o risco de ataque cardíaco? A cotação do dólar aumentará na próxima semana? Qual será o preço do ouro no final deste ano? As variações na produção industrial têm influência no aumento ou redução dos preços? A introdução de uma nova tecnologia diminui o custo de fabricação de certo produto? Qual a melhor estratégia de investimento a ser feita nas Universidades públicas? Qual será o índice de custo de vida no próximo mês?

A Estatística tem sido utilizada na investigação científica nas mais variadas áreas do conhecimento, visando a otimização de recursos económicos e de processos de produção, bem como o aumento da qualidade e produtividade, nas questões judiciais, na medicina, e em muitos outros contextos. Trata-se de uma ciência multidisciplinar, empregada nos diferentes ramos do conhecimento, entre eles agronomia, biologia, direito, economia, engenharia, farmácia, física, geologia, hidrologia, medicina, nutrição, psicologia, química e sociologia.

Atualmente, os dados estatísticos oficiais são obtidos, classificados e armazenados em meios magnéticos e disponibilizados em diversos sistemas de informações acessíveis a pesquisadores/gestores, cidadãos e organizações da Sociedade, que, por sua vez, podem utilizá-los para o desenvolvimento das suas atividades.

A expansão no processo de obtenção, armazenamento e disseminação de Estatísticas Oficiais tem sido acompanhada pelo rápido desenvolvimento de novas técnicas e metodologias de análise de dados estatísticos.

Praticamente todas as informações divulgadas pelos meios de comunicação social provêm de alguma forma de inquéritos e estudos estatísticos. O crescimento populacional, os índices de inflação, emprego e desemprego, os índices de desenvolvimento humano são alguns exemplos divulgados pelos meios de comunicação social.
Na investigação científica, a Estatística é empregada na definição do tipo de experiência, na obtenção dos dados de forma eficiente, em testes de hipóteses, estimação de parâmetros e interpretação dos resultados, permitindo ao investigador testar várias hipóteses a partir dos dados empíricos obtidos.

No setor da indústria, os engenheiros utilizam técnicas estatísticas com o objetivo de acompanhar o controlo da qualidade dos produtos dentro de um determinado nível de aceitação.

É experiência comum no mundo inteiro que, nas indústrias onde os métodos estatísticos são explorados, a produção aumentou em cerca de 10% a 100%, sem nenhum investimento adicional nem expansão industrial.
Neste sentido o conhecimento estatístico é considerado um recurso nacional, não surpreendendo que nas invenções modernas o controlo estatístico de qualidade seja uma das grandes invenções do Século XX.

Na indústria, o Controlo Estatístico de Processos é uma ferramenta que utiliza a Estatística para fornecer informações para um diagnóstico mais eficaz na prevenção e deteção de falhas/defeitos, identificando as causas, o que auxilia aumentar os resultados da empresa, evitando desperdícios de matérias-primas e produtos, entre outros.

No mercado financeiro e instituições bancárias, os métodos estatísticos são empregados para modelagem financeira e económica, visando o comportamento do crédito, a movimentação de ações e previsões de taxas de juros, possibilitando estabelecer estratégias para conceder empréstimos que maximizem os lucros.

Em empresas de sondagens de mercado e opinião, a Estatística é fundamental na realização de estudos sobre comportamento e perfil dos consumidores de uma região, segundo género, classe social ou idade, com o fim de identificar as necessidades e oportunidades de produtos e serviços para um determinado segmento da população.
Por meio de sondagens de opinião, avalia-se a aceitação de pacotes turísticos para viagens e entretenimentos, hábitos de consumo, imagem de instituições e sondagens eleitorais, estimando a tendência de voto para fazer a previsão dos resultados de uma eleição.

Na Administração Pública os métodos estatísticos podem ser empregados no planeamento e controlo da prestação de serviços, visando implantar técnicas administrativas eficientes que garantam menores custos e maior eficiência, na estimação de receitas, previsão de existências e procura e, principalmente, conhecimento dos seus utentes.

Na indústria farmacêutica, química, siderúrgica, têxtil, alimentícia e de bens manufacturados, os métodos e técnicas estatísticas são utilizados desde a fase de definição dos produtos até a produção final, através de sondagens de mercado, controlo de qualidade, custos e previsão de vendas.

Na medicina, os métodos estatísticos de planeamento de experiências são empregados em análises de drogas e em ensaios clínicos, permitindo testar hipóteses que possibilitem decidir sobre a eficácia de um novo medicamento no combate a determinada doença.

As informações fornecidas pelos testes bioquímicos são analisadas por métodos estatísticos visando estabelecer diagnósticos e previsões de possíveis causas de doenças. A aplicação de técnicas estatísticas tornou o diagnóstico médico mais objetivo e preciso, o que permite identificar situações críticas e, consequentemente, atuar no seu controlo, desempenhando papel crucial no estudo da evolução e incidência de uma doença, como, p. ex., a SIDA.
Na área jurídica, a Estatística é utilizada pelas partes do tribunal com o intuito de fornecer evidência sobre a ocorrência de determinado evento. Nesse sentido, pode fornecer a probabilidade de um réu ser considerado culpado ou inocente, baseando-se na recolha de informações sobre o local onde ocorreu o crime.

Nas companhias de seguros os métodos estatísticos são empregados para estabelecer avaliação de riscos, a partir do cálculo de estatísticas securitárias, permitindo a criação de diferentes modalidades de seguro, mais sofisticadas, complexas e economicamente viáveis, de forma que a empresa tenha solidez no mercado.

Na economia, a Estatística, a partir de um modelo teórico-económico estabelecido, tem a finalidade de investigar, com base em dados empíricos, a capacidade de explicação das equações económicas ajustadas, avaliando a significância dos parâmetros de cada regressão, os testes de hipóteses globais, os testes dos coeficientes individuais de regressão, bem como o coeficiente de determinação do modelo.

A modelagem econométrica tem sido muito utilizada na estimação das funções de oferta e procura, permitindo a obtenção das elasticidades preço-rendimento, no curto e longo prazo, sendo usada também no cálculo dos números-índices para medir o custo de vida de um país, região ou município, e o nível de emprego e desemprego.

Atualmente as ciências económicas têm procurado caminhos alternativos para explicar os factos económicos, utilizando métodos estatísticos multivariados, através das técnicas de análise fatorial, análise discriminante e correlação canónica, como uma alternativa eficiente para a escolha de variáveis necessárias ao bom desempenho da economia, dependendo do problema a ser estudado.

Através dos métodos de análise estatística multivariada, tornou-se possível selecionar/excluir as variáveis que não servem e analisar aquelas que explicam as inter-relações entre as demais variáveis. Estes métodos vêm sendo utilizados amplamente na economia quando estão envolvidas muitas variáveis e é preciso selecionar as mais relevantes para uma análise mais apurada da atividade económica.

Em qualquer país a Estatística é ferramenta fundamental para traçar planos sociais e económicos e projetar metas para o futuro. Técnicas estatísticas avançadas permitem estimar com um bom grau de precisão variáveis como tamanho da população, taxa de desemprego, índices de inflação, evasão escolar, procura de determinados bens e serviços, assim como formular planos para atingir as metas programadas de avanço no bem-estar social.

As estratégias para a redução da pobreza e o desenvolvimento mundial apoiam-se na Estatística, englobando a sua utilização desde a elaboração até a implementação de políticas e programas nacionais, como de Estratégias de Redução da Pobreza, cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, definidos a nível internacional, servindo para avaliar o desempenho destas políticas junto da Sociedade.

Estatísticas confiáveis descrevem a realidade quotidiana das pessoas; revelam, p. ex., onde se encontram os pobres, por que razões são pobres e como vivem. Por sua vez, estas informações fornecem as evidências necessárias à implementação e controlo de políticas de desenvolvimento efetivas. Indicam onde os recursos são mais necessários e fornecem meios para avaliar o progresso e medir o impacto de diferentes políticas.

Estatísticas de qualidade também melhoram a transparência e a responsabilidade quanto à prestação de contas na elaboração de políticas, dois elementos essenciais para uma gestão pública eficiente e eficaz, pois permitem que os cidadãos avaliem o sucesso de políticas públicas e desafiem as autoridades a responder por essas políticas. (Portugal 04 de Julho de 2017)

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