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Uso do poder para ofuscar 20 de Janeiro: A complexidade da disputa entre a memória, a política e a história 21 Janeiro 2018

A memória e a política nunca estarão completamente fora da história. No entanto, o uso (e abuso) do poder e das circunstâncias para ofuscar aquilo que hoje deveria estar marcada na mente de todos os cabo-verdianos (20 de Janeiro e outras datas históricas), é algo de muito preocupante. A postura crítica dos Antigos Combatentes da Pátria e de algumas figuras chaves na memória da luta da libertação, incluindo o atual presidente da República Jorge Carlos Fonseca, deixa-nos preocupado relativamente à preservação da memória e toda a história do povo Cabo-verdiano.

Por: Elisangelo Moniz *

Uso do poder para ofuscar 20 de Janeiro: A complexidade da disputa entre a memória, a política e a história

O presente a que se vive hoje desafia-nos a uma análise bastante pertinente quanto à necessidade de rememoração da nossa história, sobretudo, no contexto atual em que o debate sobre a democracia e o direito à cidadania tem ganhado lugar de destaque nos média. Na verdade, isso tudo, não apenas nos ajuda a repensar o nosso passado como contribui para uma análise mais acurada da realidade atual. É necessário refletir sobre a relação entre história, memória e política, e seus imbricamentos, quer seja no processo de reafirmação das lógicas da libertação/independência nacional ou na Democracia e soberania de um povo. Afinal, qual é o mais Importante: - A Independência ou a Democracia?

A memória e a política nunca estarão completamente fora da história. No entanto, o uso (e abuso) do poder e das circunstâncias para ofuscar aquilo que hoje deveria estar marcada na mente de todos os cabo-verdianos (20 de Janeiro e outras datas históricas), é algo de muito preocupante. A postura crítica dos Antigos Combatentes da Pátria e de algumas figuras chaves na memória da luta da libertação, incluindo o atual presidente da República Jorge Carlos Fonseca, deixa-nos preocupado relativamente à preservação da memória e toda a história do povo Cabo-verdiano.

Ainda me lembro duma das conversas tidas com um dos combatentes da liberdade da pátria (Carlos Ramos), na qual o questionei se na altura a luta para independência fazia mesmo sentido, ele respondeu: - “Imaginas o que significa estares a trabalhar na tua terra, buscando ser dígno e o mais honesto possível, porque eles assim te impunham, embora não o sendo, e chegares no final do mês, teres de ir receber o Suor da tua luta, teres de ir com chapéu à frente, como se de uma esmola se tratasse e ainda receberes um bofetada à frente das pessoas e sem poderes fazer nada? ... Era fundamental lutar pela indipendência mesmo que nos custasse a vida e que tivessemos de passar fome e aprendermo-nos nós próprios a construir o futuro do nosso país, continuou (Carlos Ramos) com um ar de revolta como se tivesse a reviver tudo de novo.

Pois, na verdade era fundamental lutar pela independência, pela soberania e dignidade do nosso povo, a qual Amilcar Cabral é a fugura mais eminente e representativa de toda luta – com o suor e o sangue derramados em prol da independencia e liberdade que ora gozamos. - Então pergunta-se o porquê da tentativa de apagar essa memória?

Frente a esta realidade, torna-se cada vez mais necessário um olhar atento às formas possíveis de instrumentalização da história para fins políticos, correndo-se o risco de obstruir um processo produtivo que vem sendo realizado no sentido de sanar muitas das lacunas ainda existentes quanto aos impactos e as consequências do colonialismo.

Vale a pena ressalvar que, de facto, se tornam percetíveis as disputas de memória em Cabo verde, infelizmente.

O estudo da memória social é um dos meios fundamentais para se abordar os problemas do tempo e da história. A memória ou, pelo contrário, o esquecimento deve hoje constituiur uma das grandes preocupações, sobretudo das classes, dos grupos, dos indivíduos que que lhes foram concedido o poder de os preservar. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos de manipulação da memória coletiva. Ou seja, historicamente sempre houve uma grande preocupação sobre o que podemos (e/ou devemos) lembrar e aquilo que deve ser esquecido. E quando se trata do passado, em Cabo Verde ainda esta disputa é bastante latente, o que é lamentavel. Neste tópico específico, quando falamos de disputas de memória, o que está em jogo aqui é o lugar de fala, ou seja, quem tem o direito e a legitimidade para falar deste passado? É basilar conceder o lugar de fala aos ex-combatentes, de forma que suas narrativas possam adentrar a arena pública (e política). Talvez assim possamos ter uma vião mais crítica de todas as complexidades e contradições que estão a marcar essa disputa.

Não obstante ao longo da história, os Colonizadores insistentemente tentarem nos apagar a memória, agora assistimos-nos nós mesmos a intentarmos essa prática, agora travestido de outras roupagens.

Como exposto no início, heis a minha visão/preoucupação sobre a complexidade de disputa entre a memória, a política e a história. Será que estamos a correr o risco de ser um povo sem a História?


* elimoniz83@gmail.com ( Mestrando em Sistemas Agrários Tropicais: Produção, Sociedade e Política)

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